Ouvir estrelas
O que é que a gente vive quando vive por escrito, e o desejo de ver algo extraordinário
A estrela T. Coronae Borealis está para explodir. Faz tempo que eu espero alguma coisa espetacular no céu. É um desejo de menino que não me abandona. Pode ser que seja essa estrela, afinal. Mas pode ser que esteja nublado na noite em que ela virar “nova” (a mesma coisa que “supernova”, só que menor). Pode ser que não seja visível onde eu estiver, sei lá por que, por mil razões.
Tudo começou com meu avô, que contava que viu o cometa de Halley em 1910. Ele tinha nove anos, morava no interior do estado do Rio, imagina o céu de uma cidade pequena lá naqueles inícios do século vinte. A aparição do Halley em 1910 foi espetacular, há inúmeros relatos e registros, há fotos. Meu avó ter visto aquilo era quase como se ele tivesse visto os dinossauros, para a minha cabeça de garoto.
O Halley dá as caras a cada setenta e seis anos, sem erro. Então, esperei: 1986, faltava bem pouco, na verdade. Meu avó ainda estava vivo quando o cometa voltou. Mas foi uma decepção. Não deu pra ver, não foi um espetáculo, o dinossauro se escondeu de mim. Depois, ao longo dos anos, houve outros fenômenos celestes que ou acabavam não sendo tão incríveis assim ou simplesmente eu não conseguia ver, por estar no lugar errado, ou na hora errada.
Penso nisso tudo lendo “The third realm”, romance de Karl Ove Knausgård que é continuação do seu “The morning star” (“Estrela da manhã”, na tradução de Guilherme da Silva Braga). Nos dois livros, um elenco numeroso de personagens testemunha o aparecimento de uma supernova, enquanto vivem suas vidas complicadas, casais, filhos, trabalho. E seus problemas são maiores que a estrela super brilhante no céu.
O que diz de nós que nossas vidinhas sejam maiores, possam nos parecer maiores, que um fenômeno extraordinário? Diz que somos imensos e somos mínimos. Mínimos, porque não conseguimos escapar ao laço das nossas neuroses para parar com tudo e olhar o céu. Imensos porque, sim, uma vida é algo de épico, mesmo que as aflições que se vive sejam as de um casamento claudicante como o de Gaute e Kathrine.
Quando eu escrevo, é como se experimentasse alguma coisa. Não é o mesmo que experimentar. Mas é alguma coisa. Será que se eu escrever o cometa que não vi, eu vou ver o cometa?
Escrever é e não é experimentar
No meu romance, “Sinais vitais”, há todo um trecho que se passa em lugares e num tempo bem específico, que vivi. Coloquei a Alice, minha personagem, para passar por lugares por onde eu passei e ela talvez até encontre versões de pessoas que eu conheci. Os ônibus circulares da zona sul do Rio, um cinema, uma livraria, a rua Voluntários da Pátria numa noite de muita chuva, um motel no Catete, ruas e mais ruas que eu conheço bem.
Escrever essas partes do romance foi um pouco estar nesses lugares. Mas ao mesmo tempo é claro que não foi, não é, não pode ser. Não sei se é okay citar a mim mesmo, mas… em algum momento do romance alguém diz que olhar para o passado “é o contrário de ser jogado ao mar com os pés numa bota de concreto. É mirar um abismo ao qual não é possível se lançar”.
Escrever é o mais perto que há de viver o que não se viveu ou de reviver alguma coisa. Mas ainda assim passa longe, longe.
A história da Alice, que é também a história do Cláudio - seu namorado, marido e viúvo, meio que ao mesmo tempo - e da Martha (sua filha), não é a minha história. A vida dela, deles, é deles, é dela. Ela vai a lugares - literais e metafóricos - aonde não estive nem estarei. Como os meteoros que toquei num museu em Frankfurt pensando nas distâncias impossíveis que viajaram e que tocar neles, ali frios e quietos, não me levava àquelas vastidões mas trazia algo daquelas vastidões até mim.
Só se viaja no tempo
Alice diz ao namorado que “a única viagem que se faz é no tempo”. Ele não entende bem, ela não explica muito. Só diz que “os lugares existem para você saber onde está no tempo”. Então, por exemplo (e quem fala agora sou eu e não mais Alice), uma tarde em 2005 é abraçar alguém pela primeira vez numa exposição no centro cultural dos Correios. O lugar é o índice do tempo, mas é no tempo que se viaja. Porque posso voltar àquele lugar, mas não àquelas tarde.
A luz da T. Coronae Borealis, também conhecida como “Blaze Star”, leva três mil anos para chegar aos nossos olhos. Pensa nisso, se a estrela explodir mesmo e você tiver a sorte de ver, que aquela luz viajou milênios para chegar aos seus olhos, que de alguma forma, infinitésima que seja, algo daquela estrela, uns fótons, veio de lá e chegou ao fundo da sua retina só para você ver. Pensa, que imenso.
Pés no chão
Para não fizer que essa edição ficou viajandona demais, alguns comentários um pouco mais centrados.
“Estrela da manhã” é de longe o melhor livro do Knausgaard que eu li, e “The third realm” promete também (estou na metade). Como é típico do prolífico (e prolixo) norueguês, esses romances fazem parte de alguma coisa maior, que não sei quanto volumes tem ou terá, e no momento não me importa muito.
Em “The morning star”, cada capítulo é narrado por um personagem diferente, estabelecendo diferentes linhas de histórias, que podem se cruzar ou não. “The third realm” funciona da mesma forma, mas com personagens complementares. Por exemplo, em “The morning star”, Arne narra as dificuldades de lidar com a esposa, Tove, que parece estar passando por um surto psicótico. Em “The third realm”, vemos a mesma situação do ponto de vista da Tove.
Por causa dessa estrutura, eu me vejo lendo um capítulo de um livro e depois indo reler o capítulo equivalente no primeiro livro. Acho que só isso já dá um bom testemunho de como o(s) livro(s) funciona(m) bem, pelo menos pra mim.
Diferente de tudo do autor que eu conheço, esses livros trazem elementos não-realistas. Coisas que talvez sejam sobrenaturais, não sei ainda, e um clima de vez em quando que tangencia o horror. Gosto disso, funciona bem ter essa dimensão no meio das tramas cotidianas.
Um porém. O último capítulo de ‘The morning star” é totalmente diferente do resto. Ao longo do livro a gente sabe que um personagem está escrevendo um ensaio. O capítulo é o ensaio do personagem. Não consegui ir até o fim, é chato, desinteressante e, na minha modesta opinião, pueril. Mas dá totalmente para desconsiderar. Para mim, o livro sem aquilo é ótimo e ninguém há de me convencer que preciso ler aquele aranzel pseudofilosófico e ainda por cima religioso.
Bobo
Tem essa coisa boba que sempre passa pela minha cabeça. Vou avisando, é pura bobeira: “ora, direis ouvir estrelas, mas que bobagem, as rosas não falam…”
Eu falei que era bobeira.
Novidades
Fiz um mini site sobre o “Sinais Vitais”, com trechos, onde comprar, depoimentos. Para quem quiser saber mais sobre o meu romance.
Essa “Ein Filterkaffee” deu filhote. “Cafezinho” é o nome da série de posts analisando obras específicas, e buscando nelas o que trazer para os nossos processos criativos, que comecei semana passada, falando sobre “Ruptura” (“Severance”). Os “cafezinhos” vão sair quinzenalmente e são exclusivos dos assinantes pagos.



Que delícia de edição. Poética e sensível ✨️
Viajar mais é preciso ;)