Cafezinho #6: Uma vaidade duvidosa
Escrever é reescrever, sim, mas até que ponto?
Um post recente do Braulio Tavares (“Escrever é cortar”) e o episódio 719 do podcast “Scriptnotes” (“When good enough is not good enough”), que escutei esses dias, me lembraram de um texto que escrevi bem uns dez anos atrás, sobre o pessoal que se orgulha de escrever trocentas versões dos seus roteiros.
No Scriptnotes, entre outros temas, os roteiristas John August e Craig Mazin falam sobre o “vomit draft”, uma prática comum - mas não unânime - que consiste em começar um processo de escrita “botando pra fora” um textão narrativo desestruturado, ou, melhor dizendo, sem uma estrutura planejada.
Braulio não está falando exatamente disso, mas dá uma bela definição do “vomit draft”, sem chamá-lo assim:
“A outra metade (dos escritores) vive a produzir uma cachoeira ininterrupta de texto que se derrama sobre a página, como uma comporta de Itaipu despejando um bilhão de litros de tinta por minuto, sem ter a menor noção de como chegar a um ponto final ou, quando o consegue, sem saber como voltar atrás e reduzir essa extensão inesgotável de parolagem para atender aos telefonemas impacientes do editor que lhe faz a pior das ameaças: “Se não cortar, eu mesmo corto”.
Braulio Tavares, em “Escrever é cortar”
Mais adiante, Braulio apresenta a versão lapidada do vomit text acima:
Aliás, poderíamos reescrever assim este último trecho:
A outra metade é uma comporta de Itaipu despejando um bilhão de litros de tinta por minuto, incapaz de fazer ponto final ou de cortar algo, mesmo quando o editor ameaça: “Se não cortar, eu mesmo corto”.
Não sou praticante do “vomit draft”, nunca fui. Mazin e August também não são. Eles dizem que não tem nada contra a prática, para quem precisa dela. Nem eu. Mas… Há vômitos e vômitos. Eu não acredito, que alguém que escreva bem, cinema, literatura ou o que for, simplesmente “saia escrevendo”. Acho que, sim, dá para escrever sem necessidade prévia de fórmulas, sem gráficos e outras vigarices pseudo-estruturais, mas não sem algum tipo de trabalho prévio que te dê um norte.
Às vezes a metáfora revela mais do que se imagina: para mim, o maior problema da versão vômito é a trabalheira que dá para limpar depois. Será que vem daí a inflação de reescritas?
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