Fofura tem limite
O encontro com um chato pré-histórico
“Ein Filterkaffee” é a newsletter de um escritor e roteirista brasileiro (eu) vivendo na cidade de Colônia, na Alemanha. Se você chegou agora, dê uma olhada no primeiro post
A cachoeira que não devia existir
Verão, tá sol, tô numa mesa do lado de fora do café da Traumathek. Não chove há dias, mas do prédio em frente despenca uma água pelo ladrão. Karin, a gerente, vem cá pra fora observar o fenômeno ao qual, confesso, não dei a menor importância. Ela comenta em alemão, entendo fragmentos, comento de volta em inglês. A essência da conversa é o absurdo daquela água.
Ter nascido e vivido a maior parte da minha vida no Brasil me preparou para lidar com esse tipo de absurdo, ou melhor, a não lidar, ignorar, deixar pra lá porque tem sempre alguma coisa sem nexo acontecendo. Não é assim para Karin e nem para alguns transeuntes que param também para olhar e comentar a cachoeira urbana que não devia existir.
Os alemães são mais engraçados do que você imagina. Às vezes, sem querer, como nesse caso, e muitas vezes de propósito também.
Saco plástico e mãos de tiranossauro
Já falei da Traumathek outras vezes. Trata-se de uma corajosa videolocadora, sobrevivente a tudo e a todos, com um acervo de filmes fantástico e um café simpático. Um dia, isso faz tempo, tipo uns dois anos, estou lá e escuto um cara que nunca vi antes falando com Florian, que alterna com Karin no atendimento, em inglês. Algo que ele diz me faz desconfiar que ele é brasileiro. Pergunto. É.
Não quero aborrecer vocês, por isso não vou tentar reproduzir o que foi a conversa. Comecei animado com a perspectiva de falar com um cinéfilo brasileiro. Meia hora mais tarde, só conseguia pensar em como fugir dali. Dizer que o cara era chatíssimo, exasperante, desesperador, seria expressar o horror em termos demasiado modestos. Arranjei uma desculpa e me mandei, deixando para trás, como um pelotão que deixa para trás seus feridos, uma alemã que entrou na conversa porque falava português. Era ela ou eu.
Então me lembrei do que é um cinéfilo e de como esse personagem não muda.
Eu fui e sou um cinéfilo, assim como um número enorme dos meus melhores amigos. Mas nós nunca fomos o cinéfilo-cinéfilo mesmo, que eu achava, aliás, que se encontrava extinto. O cinéfilo-cinéfilo (daqui pra frente referido apenas como cinéfilo) é um ser quantitativo. Viu milhares de filmes. Memorizou milhares de nomes. Memorizou opiniões. Formou algumas, às quais aferra-se, obstinado. Há algo de robótico na monotonia com que se expressa e há, acima de tudo, uma arrogância construída detrás de barragens de informações. Um chato.
Esse tipo de cinéfilo carrega sempre um saco plástico. Sempre. Uma vez, vi o Brian de Palma, conhecido por ser um cineasta cinéfilo. Adivinha? saco plástico. Nem sei como esse cinéfilo brasileiro arranjou um saco plástico desses, que aqui isso é proibido.
E mais, o cinéfilo típico porta seu inevitável saco plástico sempre com as duas mãos na frente do peito ou da barriga. Com mãozinhas de tiranossauro.
Fofura tem limite
Eu sei, esse texto ficou malvado. E eu nem sou um cara malvado. Se você lê isso aqui faz tempo, talvez até me ache fofo. No dia-a-dia, acho que sou mesmo um cara gentil (aprendi com meu pai, sem que ele nunca tivesse ensinado). Mas nem tudo pode ser escrita afetiva.
O Joca Reiners Terron não é nem tenta ser fofo e, por isso, recomendo muito seus conselhos-porrada sobre escrita. Não que concorde com todos. Discordo de vários, mas tenho medo do Joca e por isso fico na minha. Recomendo, dentre os posts dele, os seguintes:
O subtítulo deste último post diz tudo sobre o, com o perdão da má palavra, “approach” do Joca: “É comum professores dizerem que aprendem com seus alunos. O que não dizem, porém, é que aprendem o que não deve ser feito.”
Bibliografia anti-fofura
Se você, como eu, acha que de boas intenções o inferno está cheio (gosto ainda mais da versão em inglês, que, traduzida, diz que “o caminho para o inferno é pavimentado pelas boas intenções”) e que excesso de doçura enjoa, recomendo com fervor (de novo, pois já o fiz antes), cinco romances de autores brasileiros vivos, e não-fofos. A quem se dedicar à leitura destas obras posso garantir total ausência de epifanias fáceis e “sutilezas” disfarçando falta de assunto.
“Meu passado nazista”, do André de Leones
“A pediatra”, da Andrea del Fuego
“Noite dentro da noite”, do Joca Reiners Terron
“O paraíso é bem bacana”, do André Sant’Anna
e “Puro”, da Nara Vidal.
Tem mais, é lógico, e se abrir pros mortos aí o jogo fica bonito. Só para ficar com os dois primeiros que me passam pela cabeça:
“A tragédia brasileira”, do Sérgio Sant’Anna
“O quieto animal da esquina”, do João Gilberto Noll.
E, lógico, todo o Nelson Rodrigues.
Bill Nighy e as palavras banidas
O ator exótico (não encontro melhor definição) Bill Nighy tem um podcast em que responde perguntas aleatórias com qualquer opinião não menos randômica. É ótimo porque ele é engraçado. Não é hilário, não é de se rasgar de rir, não, mas é engraçado, dá uma onda pela boba despretensão e o sotaque britânico.
No podcast, Bill tem uma seção em que, arbitrariamente, baseado no seu gosto pessoal e mais nada, lista palavras que deveriam ser banidas da língua inglesa. Se eu tivesse um podcast semelhante, também teria uma lista dessas.
No topo da minha lista estaria uma palavra cujo uso indiscriminado (e não raro equivocado) desgastou até o limite do não-significado: "sutil”.
Pé direito?
Você deve estar pensando que acordei com o pé esquerdo, que estou de mal com a vida. Muito pelo contrário. Tô ótimo, e só não ando assoviando por aí porque, desgraçadamente, não sei assoviar. E pra provar que tô legal, boto pra tocar um Jorge Ben, o único (segundo ele mesmo) compositor brasileiro que nunca fez uma música triste.




Sempre abominei ser chamada de cinéfila, justamente porque não quero ser confundida com esses chatos que você tão precisamente descreveu.
Adoro um bom post mau humorado, adoro quem enche a boca pra reclamar, reclamar é uma arte. Me lembra o Hugh Grant naquela entrevista com a Drew Barrymore, e um vídeo em que ele lista coisas que detesta.
Fiz um amigo muito querido por meio da comunidade que ele tinha no Orkut, chamada “Ódio gratuito”.
Tudo pra dizer: seja malvado.
Tb recomendo a música “Too sweet” do Hozier. É hit, mas pelos bons motivos. Como ele, I take my whisky neat and my coffee black.
Saudades, David.
Nenhuma música triste de fato